
ANA SABIÁ
garatujas, 2025

Em setembro de 2024, recebi em casa um presente insuspeito, enviado por uma tia do interior de São Paulo. Dentro da pesada caixa, descobri um tesouro inimaginável: centenas de fotografias antigas, em sua maioria datadas do fim do século XIX à metade do XX.
Estas fotos vernaculares herdadas são testemunhos que interessam ao lar e ao coração, assim como à compreensão histórica das transformações sociais, pois iluminam tanto o devaneio estético e a criação especulativa sobre a vida daqueles retratados, quanto as discussões acerca de gênero, raça, classe e outras demarcações identitárias. Ao organizar as fotografias por temas, percebi que a maioria retrata mulheres e crianças. Intuindo processos criativos, selecionei aquelas com mães e bebês para dialogar com a série "Madonnas Contemporâneas" e as que apresentam duas mulheres lado a lado para conversar com a série "As duas Sabiás".
Assim instaurei, a partir dessas imagens antigas, composições renovadas num movimento circular e elíptico de eterno retorno nietzschiano e futuro ancestral krenakiano — analisando o passado para vivificar o presente e projetar futuros, propondo leituras e escritas inéditas neste cintilar enigmático de imagens.
Minha mãe guardou toda a minha experimentação gráfica desde os primeiros rabiscos. Quando me tornei mãe, também colecionei as manchas de tinta, os corpos-palito, as formas descontínuas e as linhas infindas dos desenhos feitos por meu filho. Essas garatujas enérgicas e vibrantes são camadas de grafia — da escrita e da foto — que agem, falam e instauram novos enunciados. Essa intertextualidade se faz na montagem: entre desenhos e fotografias, nascem novas imagens, são escritas outras narrativas e desencadeadas novas leituras, fruto da seleção dos retratos anônimos, da escolha das garatujas para encaixe, da provocação estética nas sobreposições e dos diálogos possíveis em seus deslocamentos.
fotografia autoral • arte








